Doze ideias sobre o que é amar confrontam-se neste livro: algumas pessoas pensam que a amizade pode nascer e desaparecer num instante, outras acham que ela só existe se for duradoura. Algumas amam-se a si próprias, outras não...
As Três Fiandeiras
Era uma vez uma moça preguiçosa, que não queria fiar. A mãe podia falar o que quisesse, que não conseguia convencê-la a trabalhar.Finalmente a mãe ficou zangada e impaciente, a ponto de dar-lhe umas pancadas, e a moça começou a chorar em voz alta. Naquele momento , a rainha ia passando por ali, na sua carruagem, e quando ouviu o choro, mandou parar, entrou na casa e perguntou à mãe por que ela batia tanto na filha, que se ouviam os gritos lá da rua. Então a mulher ficou com vergonha de confessar a preguiça da filha e disse:
- Eu não consigo fazê-la parar de fiar, ela quer fiar o tempo todo, e eu sou pobre e não posso arranjar tanto linho.
Então a rainha respondeu:
- Não há nada de que eu goste mais do que ouvir fiar, ela quer fiar , e nada me dá mais prazer que o ronronar das rodas da roca. Deixe-me levar a sua filha comigo para o castelo , eu tenho linho à vontade e ela poderá fiar quanto quiser.
A mãe concordou de todo o coração , e a rainha levou a moça consigo.
Quando chegaram ao castelo, ela levou a moça para três quartos que estavam cheios do mais belo linho, de alto a baixo.
Agora fia-me este linho, disse ela, - e quando terminares, terás o meu filho mais velho por esposo. Mesmo que sejas pobre, eu não me importo: a tua valente diligência é dote suficiente.
A moça assustou-se por dentro, pois não poderia fiar aquele linho, ainda que vivesse até trezentos anos e ficasse todos os dias fiando desde a manhã até a noite. E quando ficou sozinha, ela começou a chorar e ficou assim três dias, sem mover um dedo.
No terceiro dia, chegou a rainha, e quando viu que nada tinha sido fiado, admirou-se muito. Mas a moça desculpou-se, dizendo que não conseguira começar a trabalhar, por causa da grande tristeza que a separação da mãe lhe causara. A rainha aceitou a desculpa, mas disse ao sair:
- Amanhã tens que começar a trabalhar!
Quando a moça tornou a ficar sozinha, não sabia o que fazer e, na sua afliçao, foi para a janela. Aí ela viu três mulheres chegando. Uma tinha um pé largo e chato, a segunda tinha um beiço tão grande que lhe caía por cima do queixo, e a terceira tinha um polegar muito largo. Elas pararam embaixo da janela, olharam para cima e perguntaram à moça o que ela tinha. Ela queixou-se da sua infelicidade. Então elas lhe ofereceram a sua ajuda e disseram:
- Se nos convidares para o teu casamento, nos chamar de primas, sem ter vergonha de nós, e nos puseres à tua própria mesa, nós te fiaremos todo o linho, e num tempo bem curto.
- De todo o coração, - respondeu a moça, - entrem e comecem a trabalhar logo!
E ela deixou entrar as três estranhas, arranjou-lhes lugar para se sentarem e elas começaram a fiar. A primeira puxava o fio e pisava o pedal da roca, a outra molhava o fio, e a terceira torcia-o e batia com o dedo na mesa, e cada vez que ela batia, caía ao chão uma meada de linha da mais fina fiação.
A moça escondeu as três fiandeiras da rainha, e sempre que ela vinha, mostrava-lhe a grande quantidade de linha fiada, e colhia muitos elogios.
Quando o primeiro quarto foi esvaziado, começou o trabalho no segundo, e logo mais no terceiro, até que este também ficou arrumado. Então as três mulheres despediram-se da moça e disseram:
- Não te esqueças do que nos prometeste , isso será a tua felicidade!
Quando a moça mostrou à rainha os três quartos vazios e o grande monte de linha, a rainha preparou tudo para o casamento, e o noivo ficou muito contente, porque ganhava uma esposa tão jeitosa e diligente, e cobriu-a de elogios.
- Eu tenho três primas, - disse a moça, - e como elas me fizeram muita coisa boa, não quero esquecê-las na minha felicidade, permita-me pois, que eu as convide para o casamento e as faça sentarem à minha mesa.
A rainha e o noivo disseram: - Por que não permitiríamos isso?
Quando a festa começou, entraram as três mulheres em trajes estranhos , e a noiva disse: - sejam bem-vindas, queridas primas !
- Ah, disse o noivo, - onde arranjaste essas parentes tão feias?
E ele foi até aquela do pé largo e chato e perguntou:
- Do que lhe vem este pé tão largo?
- De pisar o pedal, - respondeu ela, - de tanto pisar!
O noivo dirigiu-se à segunda e perguntou: - Do que lhe vem esse beiço caído?
- De lamber, - respondeu ela, - de tanto lamber!
Para a terceira ele perguntou:
_ E de onde vem este polegar achatado?
- De torcer o fio, - respondeu ela, - de tanto torcer!
Então o príncipe ficou assustado e disse: - de agora em diante minha bela noiva nunca maios tocará uma roca de fiar!
E com isso a jovem ficou livre da odiosa fiação de linho!!!!
Irmãos Grimm
Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, dia 3 de Dezembro
O desejo de Nathan
A minha vizinha, Miss Sandy, é reabilitadora de aves de rapina, ou seja, toma conta de aves feridas, como corujas e falcões, até elas serem capazes de voar de novo.
Todos os dias, vejo-a misturar medicamentos, distribuir comida e limpar as grandes gaiolas que tem no pátio. Por muito cansada ou ocupada que esteja, Miss Sandy tem sempre tempo para falar comigo acerca dos pássaros.
O meu maior desejo era poder andar sozinho para poder ajudá-la nas tarefas, em vez de estar apenas a observar. Mas, como tenho paralisia cerebral, os meus músculos não têm força suficiente para que eu ande sem cadeira de rodas ou andarilho.
Certo dia, Miss Sandy mostra-me uma coruja-das-torres, que tem uma asa partida. Embora a asa esteja dentro de uma tala, a coruja tenta escapar debatendo-se contra as paredes da caixa de madeira onde foi colocada.
— Vai ter de ficar aqui até a asa sarar — diz Miss Sandy. — Que nome achas que lhe devemos dar, Nathan? — pergunta-me.
Os olhos brilhantes e amarelos da coruja faíscam, zangados.
— Que tal Fogo? — proponho.
— Parece-me um bom nome — concorda Miss Sandy. — Espero que em breve a Fogo acalme.
Contudo, em cada dia que passa, a Fogo continua a lutar para ser livre e preocupo-me que se magoe de novo. Finalmente, Miss Sandy tira a tala da asa e coloca a coruja numa gaiola.
— A Fogo precisa de exercitar a asa — explica-me.
À medida que as semanas passam, a asa torna-se cada vez mais forte e a Fogo é colocada numa gaiola maior. Por vezes, ignora os ratos mortos que Miss Sandy lhe traz e prefere perscrutar o céu. Percebo que gostaria de caçar a sua própria comida.
— Quanto tempo falta para ela poder voar de novo? — pergunto, um dia.
— Uma asa partida demora muito a ficar curada — respondeu Miss Sandy. — Pareces tão impaciente quanto ela, Nathan!
E estou. Estou ansioso que a Fogo seja de novo livre. Quando estou na escola e vejo um pássaro a voar lá fora, penso na Fogo e deixo de ouvir o professor.
À noite, quando oiço um grito estridente vindo do pátio, pergunto-me se a Fogo estará a chamar os amigos.
Um dia, vejo a gaiola dela vazia. Miss Sandy colocou-a numa pequena caixa que segura nas mãos.
— Vou pô-la na gaiola de voo, para ver até onde consegue ir — explica-me.
Enquanto a sigo, oiço o coração a bater nos meus ouvidos. Se a Fogo voar bem, Miss Sandy irá libertá-la hoje! Sustenho a respiração enquanto ela vira a caixa gentilmente, de forma à coruja pousar no chão da gaiola. A Fogo dá um salto e voa, forte e bonita.
Contudo, de repente, inclina-se para o lado e começa a descer. Embora tenha os olhos bem fechados, consigo ouvir o baque suave da sua aterragem desajeitada. E quando abro os olhos, vejo Miss Sandy a abanar a cabeça. Dou-me conta, de repente, de que a Fogo nunca será libertada. Não tem a asa suficientemente forte para sobreviver na floresta.
— Pobre Fogo — lamenta Miss Sandy. — Queria tanto ser livre!
Viro-me para que ela não veja as lágrimas no meu rosto. Sei muito bem o que é ter um desejo que não se pode realizar.
Depois desse dia, a luz dos olhos da Fogo apaga-se. Recusa a comida e nem sequer tenta sair da gaiola.
— Por favor, não desistas! — sussurro-lhe.
Mas ela continua imóvel como uma estátua, em cima do poleiro.
Deve haver uma forma de ajudar esta coruja. Procuro, no computador, informação sobre aves feridas. Deparo com um corujão-orelhudo quase cego que toma conta de corujinhas órfãs até estas terem idade para serem libertadas. Talvez a Fogo consiga fazer o mesmo. Imprimo a informação e mostro-a a Miss Sandy, que diz:
— Vale a pena tentar. Tenho três crias que ficaram órfãs na tempestade da semana passada.
Miss Sandy põe as três crias na gaiola da Fogo. As corujinhas balançam as cabecinhas e emitem uns pios engraçados. Mas a Fogo não parece interessada em crias esfomeadas ou no que quer que seja.
Como não suporto vê-la tão infeliz, decido ficar em casa alguns dias, cheio de tristeza por ela e por mim. Uma noite, Miss Sandy toca à nossa porta e entra de rompante.
— Vem comigo, Nathan! — pede. — Tens de ver a Fogo!
Antes de me aperceber do que está a acontecer, já Miss Sandy conduz a minha cadeira aos tropeções até casa dela. Finalmente, estaciona-me junto da gaiola da Fogo.
— Olha! — sussurra.
Nem posso acreditar no que vejo. A Fogo pega num pedaço de carne que estava no chão e leva-o, aos saltos, até à gaiola-ninho, onde o depõe no bico de uma das crias. Embora o seu desejo de ser livre não possa realizar-se, a coruja encontrou algo de importante para fazer. E isso dá-me uma ideia!
No dia seguinte, vou até casa de Miss Sandy e olho para o pátio. Posso não poder andar sozinho, mas vou encontrar uma forma de a ajudar nas suas tarefas! Sei que os baldes são demasiado pesados; contudo, posso encher as tinas de banho das aves com a mangueira. Demoro bastante tempo a desdobrá-la e a arrastá-la até cada uma das gaiolas. Mas não desisto até as tinas estarem todas cheias.
Quando vejo a carrinha do correio a aproximar-se, vou até ao fim da alameda e recebo a correspondência para Miss Sandy. Enfio as cartas no bolso do meu casaco e levo-as até casa dela. Quando são horas de alimentar os pássaros, ofereço-me para ficar no escritório a atender os telefonemas. O telefone toca quatro vezes e anoto os recados.
Antes de ir-me embora, Miss Sandy abraça-me e diz:
— Ajudaste-me muito hoje, Nathan.
Fico corado e baixo a cabeça. Mas sorrio. Agora sei o quão orgulhosa a Fogo se sente!
Laurie Lears
Nathan’s wish: a story about cerebral palsy
Illinois, Albert Whitman & Co, 2005
(Tradução e adaptação)
Na Floresta Negra
Era quase o fim do verão, quando o Carlos me convidou para acampar com ele na Floresta Negra.
Chegados à floresta, escolhemos uma clareira que tinha um lago perto para montar as tendas. Divertimo-nos a tomar banho e a pescar durante todo o dia.
Tudo correu bem, mas à noite… começou a minha aventura. O Carlos tinha sono e, por isso, foi dormir. Eu resolvi pegar numa lanterna e ir explorar a floresta. Ia andando com cuidado para não tropeçar, parava quando ouvia algum ruído. Até que encontrei uma mina e resolvi entrar, mas, de repente, algo passou por mim e eu, com o susto, deixei cair a lanterna no chão e fiquei às escuras. Cheio de medo fui às apalpadelas até encontrar um sítio para me sentar e ali passei a noite, com medo e frio, na companhia dos morcegos que lá havia.
No dia seguinte, voltei para o acampamento e contei a minha aventura ao Carlos.
João Cerqueira, 6.ºE
O MENINO-MORCEGO de Paul Jennings
Uma pedra com um buraco. Uma espécie de jóia verde numa bolsa de couro. Ali caídas, pura e simplesmente, sob o feixe de luz da minha tocha.
Alguém a devia ter deixado cair. Mas quem? Não havia nada nem ninguém para além do meu pai, de mim e das nossas pequenas tendas no meio do mato. Apanhei a bolsa pelo fio de couro que a atava. Depois, rastejei de regresso à minha tenda. Deveria ter mostrado ao meu pai a pedra com o buraco. Mas ele ressonava profundamente na sua tenda e não o quis acordar. E havia ali algo de estranho. A bolsa estava gasta e o fio torcido. Como se tivesse andado durante muitos anos ao pescoço de alguém. Quem é que a teria perdido no meio de nenhures?
Aconcheguei-me no meu saco de dormir e esperei que ninguém andasse a bisbilhotar. Os ruídos do mato pareciam particularmente fortes. As rãs coaxavam num pequeno charco.
Algo se aproximava pelo matagal. "Um canguru", sussurrei. Um grunhido encheu o ar nocturno. "Um coala", esperei.
Fechei os olhos e procurei forçar o sono. Disse a mim mesmo que a tenda do meu pai não estava a mais de uns metros dali. Amedrontada? Eu estava aterrorizada. E se houvesse alguém do lado de fora?
Um galho quebrou-se. Estalou nitidamente na noite. Sustive a respiração. Imobilizei-me. Queria chamar o meu pai, mas a boca não funcionava.
A aba da tenda ergueu-se. Alguém se mexeu. Uma sombra que ciciava, procurava. Um par de mãos apoderou-se da minha saca e abriu-a. Queria gritar mas algo me impedia.
Duas cabeças de agulha luminosas movimentavam-se numa cabeça escura. Olhos. Olhos desesperados.
Mexi lentamente os dedos em direcção à tocha. "Devagarinho, não o perturbes. Não o zangues." As mãos tremiam-me quando apontei a tocha à escuridão. Sentia-me como um soldado com uma arma sem balas. E lá estava. Um rapaz selvagem com cabelo emaranhado e pele gordurosa. Coberto de trapos esvoaçantes.
O rapaz recuou. Tinha um pedaço de bolo da minha saca e a bolsa com a pedra oca. Inspirou com um silvo, voltou-se para fugir e, nessa altura, deteve-se. Fixou-me numa súplica silenciosa. Um grito desesperado de ajuda. Colocou a mão diante do rosto para se proteger da luz da tocha. Deveria ter chamado o meu pai. Mas os meus olhos estavam prisioneiros, num diálogo silencioso com o intruso.
Conseguia perceber que o rapaz estava tão assustado como eu. Estava preparado para fugir. Como um animal selvagem à procura de alimento, mas incapaz de o roubar a uma mão humana. Tinha de ser cuidadosa. Um movimento em falso e ele…
- Hei!-, gritou o meu pai.
Foi exactamente como se alguém tivesse apagado uma luz. O rapaz sumiu-se num piscar de olhos. Nem cheguei a vê-lo desaparecer.
Sentámo-nos, eu e o meu pai, quase a noite inteira, a falar do que sucedera.
Constava que um eremita chamado Lonely Pearson ali vivera, em tempos, numa cabana, com a mulher e o filho. A mulher era uma especialista em morcegos, tal como o meu pai. Tinha morrido há nove anos e Lonely ficara revoltado à conta do desgosto. Queimou tudo o que pertencera à mulher. Tinha sido quase como se estivesse furioso com ela por ter morrido, deixando-o com o seu filho pequeno, então com cinco anos: Philip. A única coisa que deixara tinha sido uma pedra verde com um buraco. A mãe de Philip sempre a usara à volta do pescoço. Ele costumava brincar com ela quando a mãe lhe contava histórias, à hora de se deitar.
Após a sua morte, Philip escondera a pedra. O pai gritara. Quase desfizera a cabana aos pedaços. Mas Philip não lhe mostrava onde a escondera. Fechara a boca, guardara o segredo e Lonely nunca encontrara a pedra.
- E o que aconteceu ao Philip? - perguntei ao meu pai.
- Sumiu-se no mato. Lonely nunca o encontrou. Ninguém o encontrou. A polícia procurou-o semanas a fio.
Todos pensaram que tinha morrido. Inspirei fundo.
- E Lonely? - indaguei.
- Passou o resto dos seus dias à procura do filho. Nunca desistiu. Morreu no ano passado.
Não conseguia deixar de pensar naquele rosto triste e espantado que me fixara à luz do luar.
- Como é que ele consegue viver lá fora? - interroguei. – As noites arrefecem são frias. E não há nada para comer.
O meu pai abanou a cabeça e apagou a lanterna de querosene.
- Boa noite, Rachel.
Ouvi-o fechar o fecho do seu saco de dormir.
- Boa noite - resmunguei.
O dia seguinte estava quente. Esforçámo-nos através do denso matagal. Subimos encostas secas e rochosas com picos aguçados que nos arranhavam. Era muito bonito, mas a minha mochila estava pesada. Tal como o meu coração. Havia tristeza no ar. Às vezes, chegava a pensar que sentia alguém a observar-nos. Mas não conseguia nunca ter a certeza. Voltava-me rapidamente. Um ramo tinha-se movido um pouco. Ou será que não?
Parámos para almoçar. O meu pai deu-me uma fatia de bolo. Embrulhei-o e meti-o no bolso.
- Não tens fome? - perguntou o meu pai.
- Estou a guardá-lo para mais tarde - respondi. Realmente estava. Mas não para mim. Eu tinha outros planos para aquela fatia.
Enfiámos tudo nas mochilas e recomeçámos a caminhada. Estávamos cada vez mais alto.
O meu pai era um defensor da natureza. E de todas as criaturas vivas, as suas preferidas eram os morcegos. Íamos a caminho de uma caverna de morcegos em Bat Peaks. O meu pai ia bloquear a entrada da caverna. O tecto estava a começar a cair. Se se desmoronasse, toda a colónia de morcegos seria destruída.
- Mas vão todos morrer à fome! - tinha eu exclamado da primeira vez em que me contara o plano.
- Não - respondera. - Bloqueamos a entrada à noite. Quando eles tiverem saído para comer. Serão forçados a encontrar outra caverna. É a única forma de salvar a colónia.
E ali estávamos. A trepar montanha acima. A caminho de rebentar com uma caverna de morcegos antes que se desmoronasse e os matasse.
Nessa noite, acampámos numa clareira. Sobre nós, as estrelas enchiam o frio da noite como uma mão-cheia de açúcar que alguém tivesse lançado ao céu. As árvores eram fantasmagóricas e cinzentas. Estremeci só de pensar que alguém pudesse viver ali. Só e descalço. O meu pai arrastou-se para a sua tenda.
- Vai dormir, Rachel - disse-me.
- Vou ficar junto à fogueira só mais um bocadinho - respondi-lhe.
Não se conseguia enganar facilmente o meu pai. Ele sabia o que eu estava a preparar.
- Ele não vai aparecer - garantiu. - É selvagem e está assustado. Podemos arranjar um grupo para o procurar quando regressarmos.
Os ruídos da noite faziam-me companhia. Fixei as frinchas escuras da floresta. Queria que Philip aparecesse. Por fim, o fogo extinguiu-se. Caminhei lentamente até à beira das árvores e parti um pedaço de bolo. Coloquei-o sobre uma rocha. Repeti o gesto uns metros adiante. Criei um trilho de bolo que conduzia até junto da fogueira que se esvanecia. Então, sentei-me e aguardei.
Passaram-se minutos. Depois, horas. Lutei para manter os olhos abertos. Mas não consegui. Não se consegue afastar o sono eternamente. Não sei durante quanto tempo dormi. Mas algo me acordou. Não era um ruído. Nem nada da floresta. Acordei estremunhada e olhei em redor da clareira. Algo faltava. A primeira fatia de bolo. Desaparecera. Nessa altura, vislumbrei duas coisas. No cimo de uma árvore, estava uma figura sombria que me olhava de um ramo. E na berma da clareira havia mais alguém. Tive a certeza de que era Philip. E era.
Avançou cautelosamente. Ainda estava vestido um pedinte. Centenas de trapos esvoaçantes pendiam do seu corpo. Os olhos moviam-se rapidamente de um lado para o outro. Olhou primeiramente para o bolo e depois para mim. Avançou mais uns passos e pegou no bolo. E ali estava Philip, uma revelação. Por instantes, não consegui entender claramente o que via. Os seus farrapos esvoaçavam com a brisa. Mas era uma noite calma e não havia brisa. Tinham vida própria. Os seus farrapos fervilhavam e rastejavam e rangiam.
O rapaz selvagem estava coberto de morcegos. Pendiam dos seus braços, do cabelo, do peito. Estava vestido com morcegos vivos. Mal conseguia acreditar. Apenas os seus olhos se viam bem. Os seus bonitos olhos escuros. Gritei e cambaleei para trás. O movimento alarmou Philip e ele tapou o rosto com os braços. Era como um livro vivo com as páginas cinzentas desfolhando-se numa tempestade. Dois morcegos elevaram-se no ar e deslizaram para debaixo das árvores. Fitou-me amedrontado e olhou para os morcegos a voar em círculos. Sem uma palavra, levou as mãos à boca e começou a assobiar suavemente. Os morcegos nas árvores regressaram de imediato e colaram-se-lhe ao cabelo. Os restantes acalmaram-se.
- Desculpa - disse-lhe numa voz enrouquecida. - Não queria assustar-te.
Havia um sem-número de coisas que lhe queria dizer. Senti-me corar. Queria dizer algo terno. Algo que revelasse interesse. Algo que nos tornasse amigos. Mas tudo o que consegui dizer foi: - Come um pouco de bolo.
Philip fitou-me. Seguidamente, olhou para o bolo. Conseguia ver que não sabia bem o que fazer. Perguntei--me se já alguma vez encontrara uma rapariga. - Sou tua amiga - disse-lhe. - Não te faço mal, prometo. Ele tinha fome. Acho que há muito, muito tempo que não provava uma fatia de bolo. Talvez tivesse andado a alimentar-se de comida de morcego. Fruta e traças e outras coisas assim.
Lançou-me uma espécie de sorriso. Esboçado. Mas foi suficiente para me acelerar tanto o coração que até doeu. Começava a confiar em mim. Talvez até começasse a gostar de mim. Rápido como uma cobra que ataca, lançou-se ao bolo e começou a mastigar. Se ao menos conseguisse levá-lo a confiar em mim... Então, conseguiria falar com ele. Convencê-lo a ficar. Ele engoliu o último pedaço e, então, limitou-se a ficar ali, olhando-me directamente nos olhos. Lentamente, dei um passo em frente.
- Está tudo bem - murmurei. - Tudo bem.
Os morcegos murmuravam e moviam-se. Ele estava pronto a fugir. Mas deixou que me aproximasse. Havia um laço invisível que nos ligava.
- Aghh!... - ouviu-se um grito terrível do cimo das árvores. Um ramo quebrou-se com um estalido. Era o meu pai.
Os morcegos espalharam-se pelo ar como um enxame de enormes abelhas. O manto de Philip sumira-se. Ficou ali, nu. Olhou-me fixamente. Pensou que tínhamos tentado montar-lhe uma armadilha. Ergueu o punho e então, ponderando melhor, esgueirou-se para a floresta.
- Volta! - exclamei. As lágrimas escorriam-me pela cara abaixo. - Por favor, volta...
Mas ali apenas restavam os morcegos, aos círculos sobre mim, soltando guinchos de medo.
Corri para o meu pai: - Desculpa - disse ele. - Tive que te vigiar.
- Estás bem? - perguntei-lhe.
O meu pai tentou erguer-se, mas não conseguiu: - Torci o tornozelo - gemeu..
Um assobio suave e rangente trespassou a noite. Era o assobio que Philip fizera com os dedos. Os morcegos guincharam freneticamente, completaram mais um círculo e voaram em direcção ao som. O meu pai e eu estávamos sós na clareira escura e silenciosa.
Tinha a cabeça cheia de pensamentos frenéticos. "Philip. Traímos-te. Pai, como é que foste capaz de me espiar? Pai, estás magoado?" O meu pai gemia, agarrado ao tornozelo: - É o fim da nossa expedição - disse.
Tinha a cabeça cheia de pensamentos frenéticos. "Philip. Traímos-te. Pai, como é que foste capaz de me espiar? Pai, estás magoado?" O meu pai gemia, agarrado ao tornozelo: - É o fim da nossa expedição - disse.
- Não consigo andar.
- Mas... e os morcegos? A caverna vai desabar. Toda a colónia morrerá se não rebentarmos com a caverna.
- Lamento, Rachel - disse o meu pai. - Não me consigo mexer. E tu não podes ir sozinha. Ficamos aqui. Os Rangers vão mandar um helicóptero quando virem que não voltamos a tempo. Respirei fundo: - Mas isso é daqui a três dias! E se a caverna se abater sobre eles? Vou sozinha.
- Não sejas tonta - disse o meu pai. - Nunca viste sequer um pau de dinamite. Nem te deixaria chegar perto de um. Acabavas por te matar.
Agarrou na sua mochila e segurou-a energicamente. A dinamite estava guardada lá dentro.
- Há uma coisa em que não pensaste - disse eu. Philip. Anda coberto por morcegos. Veste-os como se fossem roupas.E assobia com os dedos e chama-os.
- Sim? - quis saber o meu pai.
- Onde é que achas que ele vive? É um rapaz-morcego. Deve viver naquela caverna com os morcegos. E o tecto está prestes a cair em cima dele. Temos que o salvar.
O meu pai manteve-se em silêncio por instantes. Sabia que eu tinha razão.
- Não vais a lado nenhum - disse por fim. - Podes-te perder. Não sabes mexer na dinamite. De qualquer maneira, o rapaz não vai sair da caverna. Ele é selvagem. Ficamos à espera da chegada de auxílio. E mais nada. Quando um pai diz "E mais nada", normalmente é assim mesmo. Mas não desta vez.
Não sei como explicá-lo. Mas não conseguia deixar de visualizar o rosto de Philip. Tinha o estômago às voltas. Aquela caverna poderia desabar a qualquer momento. Poderia morrer sozinho, coberto de morcegos.
- Eu vou - disse. - E não me podes impedir.
- Não - disse o meu pai com uma expressão férrea. - Só tens catorze anos. Estás proibida.
- Tens o tornozelo torcido e não te consegues mexer - respondi-lhe. - Adeus.
Voltei costas e comecei a avançar para fora da clareira, em direcção à floresta.
- Está bem. Está bem, Rachel - chamou-me. - Volta. Tens de ir preparada. Leva comida e uma bússola. Cordas. Tudo. Senão, vamos ter dois adolescentes mortos.
Enchi a minha mochila. Ao amanhecer, parti. Segui em direcção a Bat Peaks. A montanha agigantava-se sobre nós. Como um par de asas gigantes.
- Lembra-te - exclamou o meu pai. - Não entres na caverna. Promete-mo!
- Sim - respondi, enquanto me embrenhava mato adentro. - Prometo.
O caminho era duro. Quanto mais subia, mais difícil se tornava. As árvores cederam o espaço a rochas gigantes e matagal. Sentia os meus joelhos ásperos e via-os sangrar. Ainda assim, não me importava. Tinha de conseguir tirar Philip e os morcegos para fora da caverna. Mas como? Levei os dedos aos lábios e soprei. O resultado foi apenas um bafo de ar quente. Se conseguisse aprender a assobiar com os dedos talvez conseguisse chamá-lo. E levar os morcegos a sair. Mas não conseguia apanhar-lhe o jeito.
Antes que me conseguisse aperceber, já estava a escurecer. Estava empoleirada bem acima da floresta numa saliência da montanha. Enfiei-me no meu saco-cama e esperei não cair da saliência abaixo enquanto dormia. Não que tenha propriamente dormido. O chão era duro. E não conseguia deixar de pensar em Philip. Assim, pus-me a tentar assobiar com os dedos. Mas nem um som me saía. Era inútil.
No dia seguinte, continuei a escalada. Havia rochas que rolavam e se despedaçavam aos meus pés. Comecei a sentir-me inquieta. Nem parei para descansar. Sabia que o tempo voava demasiadamente depressa. Não parei para nada. Nem sequer para usar a bússola. Afinal de contas só havia um caminho: para cima. Foi assim que me perdi e que caí numa fenda. Perdi a minha mochila e fiquei atordoada.. Finalmente, rastejei para fora dali e chorei. Não tinha nenhum mapa. Estava completamente perdida. Foi quando vi a bolsa de couro. Cambaleei e agarrei-a. Olhei lá para dentro. A pedra verde com um buraco. Philip devia tê-la deixado cair novamente. Duas vezes em três dias? Era a única coisa que tinha e que lhe recordava a mãe. Sorri. Conclui que deveria tê-la deixado ali propositadamente. Para mim. Para me mostrar o caminho. Foi o que esperei.
Agarrei na bolsa e prossegui aos tropeções em direcção ao topo de onde todos os penhascos tombavam. Uma pequena ponte rochosa espalhava uma quebra sob o vale. E ali, do outro lado, suspensa, estava a caverna.
Normalmente, eu não atravessaria aquela ponte de pedra. Por nada no mundo. Mas acabei por forçar as minhas pernas bamboleantes a avançar. E cheguei lá, perscrutando a caverna. Estava tudo em silêncio.
Olhei para o tecto da caverna. Pareceu-me perfeitamente bem. Como é que o meu pai sabia que acabaria por cair? Levei os dedos à boca e soprei. Nada. Não conseguia arrancar um assobio. Nem um gemido. Inútil.
- Philip! - chamei. - Philip, sai. A caverna vai desabar.
Como resposta, obtive apenas o silêncio.Esqueci-me do que prometera ao meu pai. Com o coração aos saltos, penetrei na escuridão. Um ruído borbulhante e suave rodeou-me. Quando os meus olhos se acostumaram à escuridão, apercebi-me de uma rocha gigantesca no tecto. Parecia mover-se. Movia-se. Estava coberta por centenas de morcegos pendurados nela. Quanto tempo até que aquela rocha caísse? Tremi.
- Philip - chamei, ansiosa. - Philip.
Nem sinal de resposta. Levantei a voz: - Sai daí, tonto! - gritei. - Sai daí!
Não era Philip que era tonto. Era eu. A minha voz ecoou de forma terrível pelas paredes. Fez balançar as rochas. Sem aviso, a rocha do tecto mergulhou em direcção ao chão. Toda a montanha estremeceu. Encheu a caverna de pó sufocante. Milhares de morcegos misturaram-se à poeira. Aos círculos, aos guinchos. Fugi em direcção à luz brilhante do sol. Outra rocha caiu. O som que provocou ao esmagar-se contra o solo fez estremecer as paredes. Mais rochas caíram.
- Philip! - gritei. - sai daí!
O pó, como fumo de uma chaminé que tivesse caído, ondeou contra o ar da montanha. E dele surgiu Philip.
Tinha sangue que lhe escorria de um ferimento profundo na cabeça. Arrastou-se até ao exterior e caiu-me aos pés. Inconsciente. Nu. Sem nada vestido
Pobre Philip. Exposto ao vento. Estaria morto? Não o sabia. Arrastei-o para longe. Puxei-o até à ponte de pedra. E então estaquei e fiquei a olhar, aterrorizada com o que vi. A ponte tinha-se partido. Tinha caído no vale, lá em baixo. Estávamos encurralados no cimo da montanha. Não havia como voltar.
Devia tê-lo protegido com o meu pulôver. Tapado a sua nudez. Mas não havia tempo. Ainda havia rochas a cair. Não havia forma de descer. E os morcegos. Os morcegos estavam condenados.
- Socorro! Alguém, por favor, ajude!
Ninguém respondeu. E estava só. Ergui os punhos à altura dos lábios e soprei. Queria tanto salvar os morcegos! Tentei assobiar alto, mas nada aconteceu. Os morcegos iam morrer por minha causa. Por eu ter levantado a voz e perturbado as rochas. E Philip... Iria, também ele, morrer?
Então, abriu os olhos. Olhou para mim. Estariam os seus olhos a acusar-me de ter matado os seus amigos?
Nada disso. Sorriu. Tentou falar mas não conseguiu. Tocou na bolsa que eu trazia à volta do pescoço. A pedra da sua mãe.
- Isto - disse eu. Ele acenou e voltou a cerrar os olhos.
Retirei a pedra verde. Comecei a soprar através do buraco. O ar encheu-se com um assobio forte e nítido. O som mais maravilhoso que alguma vez escutara. Um ruído de trovão ecoou da caverna. Não de rochas em queda, mas de asas a bater. Centenas, milhares, milhões de asas irromperam da caverna. Tornaram o céu mais escuro. Encheram o cimo da montanha até só se avistar uma nuvem cinzenta. Philip reabriu os olhos e sorriu. Pegou na pedra que eu tinha nas mãos e soprou. Assobiou a sua mensagem pessoal aos morcegos.
Tombaram do céu como folhas outonais numa tempestade. Gritei. Agarraram-se-me ao cabelo. Aos pés. Cravaram as suas pequenas garras no meu pulôver. Pendiam de mim como trapos. Olhei para Philip. Já não estava nu, mas sim, como eu, coberto por um manto vivo. Rapaz-morcego. Rapariga-morcego. Aprisionados. Juntos em Bat Peaks. Batiam as asas a um ritmo incrível. Erguiam uma tempestade de fúria ruidosa. Os meus pés deixaram de tocar o chão. Estava a voar.
Levada, para cima, para cima. Erguida nos ares por uma agitação de asas móveis. Segura por patas minúsculas.
Vi uma explosão de pó a ser expelida da caverna lá em baixo. O tecto desabara. Como a presa de uma águia da montanha, era levada por entre os cumes das montanhas. E sobre mim, Philip, transportado pelo seu manto de amigos, pairava e mergulhava no céu vazio. Acenou-me e apontou algo.
Muito, muito lá em baixo, na esteira emaranhada das árvores, via-se um fio de fumo. A fogueira do acampamento do meu pai. Os morcegos começaram a descer. Transportando-nos pelo ar gelado.
Pela primeira vez, Philip falou. Apontou para o acampamento e pronunciou uma só palavra.
- Casa.
E foi para lá que nos dirigimos.
GLOSSÁRIO:
-ciciava: segredava-eremita: pessoa que vive isolada
-querosene: combustível
-frinchas: fendas
-estremunhada: sonolenta
-freneticamente: de modo agitado
-férrea: dura, inflexível
-perscrutando → perscrutar: examinar
-esteira: tapete feito de junco, folhas…
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Um pai pintor busca na memória as respostas à curiosidade do filho, que viu um cravo desenhado sobre o cano de uma espingarda. Com a simplicidade dessa conversa a dois, vemos como Portugal despontou para a liberdade numa madrugada de 1974. Percebemos que país era esse – isolado, amordaçado e mergulhado num conflito que se eternizava. Entendemos que a ânsia de libertação transbordava largamente o universo dos militares que saíram à rua no 25 de Abril. E compreendemos a necessidade de acarinhar valores tão difíceis de conquistar e que, por hoje fazerem parte das nossas rotinas, julgamos serem naturais e isentos de perigo.
Silvana Gandolfi é uma das melhores autoras italianas e, com este livro, proporciona-nos uma história fantástica e divertida. Num quente dia de Junho, Giulia e Arianna vão fazer uma visita com a turma da escola a uma antiga mina e … vão parar a outro mundo! À ilha do tempo perdido onde estão os habitantes e os objectos que se perderam da Terra – pessoas, óculos de sol, chapéus... Mas Giulia e Arianna terão de voltar à Terra onde as espera uma importante missão! Silvana Gandolfi, com o seu livro A Ilha do Tempo Perdido, recebeu o Prémio Andersen!
Esta obra de Vanda Marques recria para os leitores mais novos a história trágica dos amores de Pedro e Inês. O texto recupera os momentos chave daquele episódio que tem atráido diferentes gerações. A intriga dá conta dos obstáculos colocados ao par amoroso a a forma como, depois de mortos, puderam ficar juntos.
Casa da Leitura
A Estrela
Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava
(…)
E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava
E assim eles disseram: «Vem connosco
Se também vens seguindo aquela estrela»
Então soube que a estrela que eu seguia
Era real e não imaginada
Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava
E a estrela do céu parou em cima
de uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza
Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado
(…)
Nesse lugar pensei: «Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
Que morava entre os homens e tão perto.»
Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)
Uma nova estrela brilha no céu, um anjo a pairar no jardim, uma visita dos reis magos, um estranho sonho... levam Babushka a viajar. Mas na viagem, Babushka encontra a mais diversa gente e depressa aprende uma valiosa lição...
Já alguma vez imaginou qual seria a sua cara se encontrasse uma tubarixa? E se fosse uma jacaraca? Ou uma porcoleta? O melhor é conhecer o livro e conviver com alguns desses animais. Será que eles existiram mesmo?! Bom, para não teres surpresas, o melhor é mesmo abrir a "Arca de Não É", não é?






